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Vidro orgânico encontrado no crânio de vítima da erupção do Vesúvio em 79 d.C.
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Imagem: Pier Paolo Petrone
Uma equipa de investigadores germano-italianos encontrou um material orgânico vitrificado invulgar no crânio de um jovem adulto, soterrado pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. e encontrado deitado na sua cama no Parque Arqueológico de Herculano, em Nápoles.
Os investigadores descreveram na revista Scientific Reports, na quinta-feira, o processo único através do qual estes fragmentos de vidro orgânico escuro foram formados dentro do cérebro e da medula espinal, noticiou a agência Efe.
A análise do material encontrado no crânio, utilizando microscopia eletrónica, espetrometria Raman e experiências de calor nos fragmentos encontrados, indicaria que a vitrificação ocorreu através de um processo único que começou quando o indivíduo foi atingido por uma nuvem de cinzas sobreaquecidas que depois se dissipou rapidamente.
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Como estava preso na nuvem de cinzas, a sua temperatura corporal aumentou rapidamente, provavelmente para mais de 510 graus Celsius, e depois voltou a arrefecer assim que a nuvem se dissipou.
Os investigadores acreditam que os ossos do crânio e da coluna vertebral do indivíduo protegeram o cérebro da decomposição térmica completa, permitindo a formação destes fragmentos de vidro orgânico únicos.
“A nossa hipótese é que em 79 d.C., após as primeiras horas da erupção do Vesúvio, se iniciaram os primeiros fluxos de cinzas, que destruíram progressivamente Herculano. O primeiro deles só chegou à cidade sob a forma de uma nuvem de cinzas diluídas, mas muito quentes, bem acima dos 510 graus Celsius”, realçou um dos autores, o vulcanólogo Guido Giordano, da Universidade de Roma III.
“Aquela primeira nuvem deixou alguns centímetros de cinzas muito finas no chão. O impacto térmico foi terrível e fatal, embora breve o suficiente para deixar – pelo menos no caso desta descoberta – o cérebro intacto”, acrescentou.
Na natureza, o vidro raramente é criado naturalmente devido às condições específicas necessárias para a sua formação.
Para que uma substância se torne vidro, a sua forma líquida deve ser arrefecida com a rapidez suficiente para que não cristalize quando solidifica.
É extremamente difícil a formação de vidro orgânico, pois as temperaturas ambiente raramente são suficientemente baixas para que a água – um componente essencial da matéria orgânica – se solidifique.
O único vidro suspeito de ser orgânico é este identificado em 2020 num corpo encontrado em Herculano (Itália), mas até agora não era claro como se formou.
“Um material vitrificado de cérebro e medula espinal como este não só nunca foi encontrado em nenhuma das centenas de esqueletos de vítimas da erupção do Vesúvio em 79 d.C., como é o único exemplo conhecido deste tipo no mundo”, detalhou outro investigador, Pier Paolo Petrone.
“As condições especiais que existiam no início da erupção no local da descoberta, bem como a proteção dos ossos do crânio e da coluna vertebral do indivíduo, criaram provavelmente as condições para que o cérebro e a medula óssea sobrevivessem ao choque térmico, permitindo a formação deste vidro orgânico único”, acrescentou Petrone.
Esta descoberta é altamente relevante, de acordo com os autores, não só para a reconstrução histórica e vulcanológica, mas também para fins de proteção civil, pois fala do perigo das nuvens de cinzas vulcânicas, que podem ser letais devido às suas temperaturas extremamente elevadas.
“Este conhecimento pode ser traduzido em medidas de prevenção e mitigação eficazes”, concluíram os autores.
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