Os encontros dominicais das “Mariinhas”, amigas de infância que souberam preservar a amizade ao longo do tempo, vão além das fotografias. Com a paisagem dos anos semeando esperanças e sem medo dos gestos de adeus, sinto-me rendida pelo tempo e pelas histórias que entrelaçam gerações e nunca envelhecem.
Manifesto toda a minha fé nas pessoas com um ou mais propósitos na vida, aquelas que frequentemente me fazem sentir pequena diante da precariedade das minhas próprias funções. O presente é o futuro, e a habilidade do tempo reforça a ideia de que a vida vale cada segundo, seja de euforia ou consternação.
Muito se fala em inclusão, mas ainda discutimos sobre género e medimos a relevância de alguém com base no número de seguidores nas redes sociais. Em contraponto a esse abismo, a tertúlia da amizade regenera a ideia de plenitude no mundo esquisito, onde alimentamos o caos enquanto sorrimos para fotografias.
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Quem conseguir abrir os olhos a tempo será agraciado pela sutileza dos banhos quentes no ritmo de domingo. A roupa, os sapatos, o perfume comedido — mais um dia para fazer valer o ditado: “A idade só limita quem deixa de sonhar.”
Sem exigências ou pontualidade académica, todas estão presentes, usufruindo do café e do espaço artístico. Ali não há obras de Paul Cézanne, mas sim de outros pintores tão impressionistas e modernos quanto ele, embora infinitamente anónimos. Um ambiente propício à imaginação, repleto de vitrolas, instrumentos, livros e um piso que remonta a um século.
Que sorte têm Aurora, Teresa, Conceição, Vidinha, Leonor, Margarida, Matilde e as Marias por dividirem a simplicidade com entusiasmo e perfeição. Para elas, viver é como se todos os dias fossem domingos — e o tempo é uma constatação de tudo o que valeu a pena viver para contar.
OPINIÃO | ANGEL MACHADO – JORNALISTA
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