Saúde

Intestino pode ser a chave para tratar a obesidade

Notícias de Coimbra | 1 hora atrás em 27-02-2025

 O tratamento da obesidade, um dos maiores desafios de saúde global, exige cada vez mais uma abordagem personalizada e deve ter em conta uma equação que associe fatores genéticos, ambientais e microbiota intestinal, defende Conceição Calhau, Professora Catedrática da NOVA Medical School e investigadora do CINTESIS.

Em vésperas de mais um Dia Mundial da Obesidade, a investigadora salienta que a obesidade não é uma condição única, mas um conjunto de desordens com diferentes causas e manifestações. “Embora tenha como fator comum a adiposidade, os mecanismos subjacentes variam: desde alterações na saciedade até inflamação crónica, resistência à insulina ou metabolismo dos lípidos. Para um tratamento eficaz, é essencial considerar a genética, o metabolismo e a microbiota de cada doente”, afirma.

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De acordo com o estudo “O Custo e a Carga do Excesso de Peso e Obesidade em Portugal”*, mais de 67% da população adulta portuguesa apresenta excesso de peso ou obesidade, com uma prevalência de obesidade de 28,7%. Os custos diretos associados a estas condições rondam os 1,2 mil milhões de euros anuais, o que corresponde a cerca de 0,6% do PIB e 6% das despesas totais em saúde no país.

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“A obesidade é uma doença complexa que implica rever e alterar, quando necessário, os estilos de vida. Contamos com a eficácia da cirurgia bariátrica e ainda com os recentes avanços da terapêutica farmacológica. No entanto, apesar de tudo, o maior desafio estará na falha da adesão, nas pessoas que não respondem ao tratamento e na manutenção da perda de peso ao longo do tempo. O desafio é perder peso à custa do tecido adiposo e não do músculo”, refere Conceição Calhau.

Neste contexto, a investigação tem destacado um fator determinante na regulação do peso: a microbiota intestinal. Segundo a investigadora, há estudos que mostram que a composição bacteriana do intestino difere entre pessoas com obesidade e aquelas com peso saudável, influenciando diretamente mecanismos essenciais como a regulação do apetite, o armazenamento de gordura e a absorção de nutrientes.

“Uma das descobertas mais promissoras neste campo é o papel da bactéria Hafnia alvei na regulação do apetite. Esta bactéria produz ClpB, uma proteína que mimetiza a alfa-MSH, um neurotransmissor envolvido na saciedade. Investigações pré-clínicas revelaram que a suplementação com Hafnia alvei (HA4597) pode levar à perda de peso ao reduzir a ingestão alimentar e estimular a lipólise, processo pelo qual a gordura acumulada é mobilizada para ser utilizada como energia”, revela.

Estudos clínicos também reforçam este potencial. Um ensaio multicêntrico, duplo-cego e controlado por placebo, envolvendo 236 indivíduos com excesso de peso, demonstrou que a suplementação com HA4597 durante 12 semanas resultou na perda de peso e melhoria do controlo glicémico. Estes resultados corroboram a hipótese de que a modulação da microbiota intestinal pode ser uma ferramenta eficaz na abordagem da obesidade.

Fatores como alimentação, exercício físico, sono, stresse e medicamentos são bem conhecidos como moduladores da microbiota. Para Conceição Calhau, a dieta mediterrânica é a que tem evidenciado mais impacto benéfico em termos de alimentação, devido, sobretudo, à presença de alimentos pré-bióticos, ricos em fibra, e de alimentos fermentados (probióticos). “Perdemos o hábito de ingerir com regularidade as leguminosas e hortícolas, bem como as oleaginosas e o peixe, 3-5 vezes por semana. Ou seja, sabemos que em Portugal a adesão à dieta mediterrânica é baixa e que os hábitos alimentares inadequados, associados à baixa prática de exercício físico, são condições que comprometem a saúde no topo da lista”, alerta.

A dieta mediterrânica, o exercício físico, dormir o suficiente e a gestão do stresse são condições muito importantes para manter a diversidade da microbiota. A investigadora frisa, no entanto, que o probiótico na forma de suplemento (e não de alimento, como será, por exemplo, o iogurte ou kefir), deve estar sustentado por estudos científicos. “Não basta ler ‘probiótico’ num rótulo e achar que faz bem. Os probióticos não são todos iguais, não são todos cientificamente testados e conhecidos e nem significa que o mesmo serve para todas as condições”, explica. Acrescenta ainda que, quando se toma um antibiótico deve ser associada a toma de probiótico adequado, para não existir (também) impacto nas bactérias benéficas.

“A abordagem não cirúrgica para a obesidade ou mesmo estádios anteriores de excesso de peso, devem passar no mínimo pela correção da disbiose (desequilíbrio) intestinal, quando esta ocorre. Mesmo com os avanços nas ferramentas farmacológicas, a intervenção, para ser efetiva, passa necessariamente por abordagens que integram as várias dimensões. Temos já avanços, quer em correções específicas, como a Hafnia alvei, quer com casos mais difíceis com transplante de microbiota fecal, ainda em fase de investigação”, conclui. Seja qual for a solução, o intestino faz parte da equação.

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