Chamam-lhes rankings das escolas, mas uma designação mais adequada seria provavelmente manuais de Inutilidade. Todos os anos, o país rende-se a esta tabelinha de Excel com pretensões a oráculo: os jornais dão-lhe manchetes e vangloriam-se de terem encontrado uma nova abordagem que se afirmará como a maneira mais correta de sempre de interpretar os números (mas nunca é, porque nunca poderá ser), muitos pais guardam-na no computador ou imprimem-na com a mesma devoção de quem acredita em milagres e alguns especialistas — sempre disponíveis para dizer banalidades com ar grave — juram a pés juntos que «Há aqui dados muito interessantes». Mas se eles existem, nunca são os destacados nem discutidos.
Tenho dificuldade em perceber como tanta gente falha em perceber o óbvio, que estes rankings não medem a qualidade das escolas porque não têm em devida conta fatores indispensáveis para a determinar, como o contexto socioeconómico dos alunos ou o nível de apoio familiar, por exemplo. É muito mais difícil ter boas notas quando o dinheiro do mês nem chega para o jantar, quanto mais para explicações.
Os rankings ignoram ainda se uma escola acolhe alunos com necessidades educativas especiais, se trabalha em territórios educativos de intervenção prioritária ou se tem professores suficientes para cobrir os horários. A única coisa que interessa ali são exames, exames e mais exames.
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Mas nada disto é neutro: ao privilegiar, não a escola que melhor ensina ou que mais faz pela ideia da educação como elevador social, mas antes a que melhor treina para o teste, está-se a punir a primeira e todos os que têm nela a única (réstia de) esperança para o futuro.
Esta fraude anual é vendida ao país há demasiados anos como se fosse ciência. É provavelmente o maior sucesso do marketing alguma vez visto em Portugal, tendo transformado numa verdade insofismável a ideia enganadora de que as escolas privadas são, por definição, melhores do que as públicas. E o país inteiro engoliu.
É claro que há boas escolas privadas. E más também, mesmo quando o Excel as coloca nos primeiros lugares. Tal como há excelentes escolas públicas, muitas delas a fazer milagres com poucos meios e nenhum holofote. Mas isso não interessa quando o que se procura não é qualidade, mas conforto ideológico. A narrativa está construída e não será fácil derrubá-la: se a escola pública tem piores notas, então o problema só pode ser dela. Não das políticas, não das desigualdades, não da falta de investimento. E como uma pescadinha de rabo na boca, urge então desviar as insuficientes verbas que ainda vão sendo transferidas, para os que podem ganhar o ilusório campeonato dos rankings.
Nenhum ministro da educação teve coragem de olhar para este cambalacho e pôr-lhe um fim, o que nos devia fazer pensar nas suas motivações. Acredito, tendo em conta as suas tomadas de posição públicas, que João Costa tivesse noção da importância desse gesto, mas o que lhe terá sobrado em vontade faltou-lhe em capacidade para resolver problemas que, sendo das escolas, não são da educação, pelo que essa oportunidade passou – talvez para os próximos 20 anos, pelo menos.
Continuaremos a ter, portanto, a continuação da promoção de uma escola de fachada, voltada para o desempenho artificial e não para o crescimento real dos alunos. Uma educação transformada numa corrida de galgos, em que se exige que os famélicos e mal tratados compitam com os mais bem alimentados e atravessem a meta à sua frente.
Mas, acredito, continuaremos também a ter suficientes escolas públicas resilientes e capazes de cumprir o seu desígnio: o de receber todos e ser espaço de igualdade. Porque educar é muito mais do que ordenar.
OPINIÃO | PEDRO SANTOS – ESPECIALISTA EM COMUNICAÇÃO
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